Alfredo Moreira Filho
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Abastecimento de alimentos em Manaus: O desafio da Ceasa

No exame do fundador e gestor do Grupo Valore+, Alfredo Moreira Filho, o abastecimento de alimentos em Manaus sempre teve um problema de origem: a cidade consome muito do que não produz. Durante décadas, frutas, verduras e legumes chegaram à capital amazonense depois de longas viagens por rio, estrada ou avião, e cada quilômetro percorrido se somava ao preço final. A criação da Central de Abastecimento do Amazonas, a Ceasa, foi uma das tentativas de enfrentar essa equação.

Uma Ceasa, sigla de Centrais de Abastecimento, é um entreposto que concentra num único lugar a oferta de hortifrutigranjeiros, isto é, frutas, hortaliças, legumes, ovos e produtos semelhantes. O modelo, inspirado no entreposto paulista, busca aproximar produtor e comprador e estimular a concorrência. Se você já se perguntou por que alguns alimentos custam tanto na região Norte, a explicação começa nos pontos a seguir.

Por que Manaus depende de alimentos de fora?

A maior parte das terras firmes do Amazonas tem solos ácidos e pobres, o que encarece a produção agrícola. As várzeas, férteis, ficam submersas durante boa parte do ano. O resultado é uma oferta local insuficiente para alimentar uma capital em crescimento acelerado, impulsionada pela industrialização da Zona Franca de Manaus.

Some-se a isso o isolamento logístico. A rodovia BR-319, que liga Manaus a Porto Velho e, por ali, ao restante do país, enfrentou longos períodos de interdição por causa das cheias, que destruíam trechos e pontes de madeira. Com a estrada intransitável para cargas perecíveis, restavam o transporte fluvial, lento, e o aéreo, caro. Alfredo Moreira resume o cenário com uma observação repetida na época: tudo o que se consumia era importado, e tudo o que se produzia era exportado.

O que muda quando a oferta se concentra?

Antes da central, o abastecimento de Manaus se espalhava por feiras tradicionais à beira do rio, onde os barcos encostavam a poucos metros das barracas. Era prático para quem trazia produtos do interior, mas dificultava o controle de qualidade e favorecia a ação de intermediários, que compravam barato do produtor e revendiam caro ao consumidor.

Alfredo Moreira Filho

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Concentrar a oferta num entreposto permite comparar preços, padronizar produtos e reduzir a cadeia de atravessadores. Como diretor de operações e finanças da Ceasa/Amazonas, empresa que tinha como acionistas o governo estadual e a Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal), Alfredo Moreira Filho acompanhou essa transição. Os importadores de alho, batata e cebola, produtos trazidos integralmente de fora, foram os que aderiram mais rapidamente ao novo modelo.

A promessa do tomate barato

O tomate era o termômetro do custo de vida em Manaus, ao lado do peixe. A produção local era escassa por causa de doenças da planta no clima amazônico, e quase tudo vinha do Sul, muitas vezes de avião. Durante uma campanha eleitoral para o governo do estado, o preço do tomate virou promessa: o quilo cairia para dois cruzeiros.

Para cumprir o compromisso, a central bancou o frete de um avião com dez toneladas de tomate vindas de São Paulo, repassado sem custo aos três principais importadores. O preço caiu na hora, mas a notícia aumentou a procura e, em poucos dias, o valor voltou ao patamar anterior. O episódio que Alfredo Moreira narra em seu livro mostra o limite de soluções pontuais para um problema estrutural.

O que o caso ensina sobre segurança alimentar?

Subsidiar uma carga resolve uma manchete, não uma cadeia produtiva. Para baratear de forma duradoura o abastecimento de uma cidade isolada, é preciso agir em várias frentes ao mesmo tempo: produção regional com tecnologia adaptada, transporte confiável e mercados organizados. Qualquer uma dessas peças, sozinha, produz efeito passageiro.

Essa percepção ajudou a orientar, mais tarde, o trabalho de fomento agropecuário no estado, que passou a ofertar insumos, crédito e assistência para estimular culturas de alimentos. Na avaliação de Alfredo Moreira Filho, o desafio do abastecimento em Manaus nunca foi apenas de preço, mas de distância e de solo. O que esse percurso demonstra é que, na Amazônia, garantir comida na mesa depende tanto de logística quanto de agricultura.

 

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